FALCATRUA
"Falcatrua"
O nome foi cunhado em agosto de 2000 com um próposito simples: o da despretensão. Eu estava vindo de um período de 2 anos tocando e estudando música no exterior e 6 anos tocando guitarra e cantando com bandas de baile, free lance, cover, pop radiofonico, blues, country, acústicos flash back e tudo mais que pudesse me dar a sobrevivência básica, necessária no momento devido a um colapso familiar. E além do mais, fiz tudo aquilo que me fizesse entender realmente, a realidade brasileira da profissão que havia escolhido.
Pra retomar minha caminhada, era necessário que sozinho iniciasse uma busca do que poderia ser artisticamente contundente em minha carreira, que havia começado profissionalmente aos 12 anos de idade. Essa busca, seria a mais importante jornada de minha vida e seria o que poderia me definir enquanto artista. Sendo assim, munido de meu violão, um PC 486 e uma série de idéias e frustrações, dei início ao projeto que hoje é conhecido como Falcatrua. Precisava agora, encontrar comparsas que dividissem o mesmo ideal que entendessem a arte de uma forma não-bairrista e fossem livres de preconceitos, para que juntos, buscássemos uma nova forma.
O primeiro e óbvio foi o Fonseca, um grande performer e cantor competentíssimo e que apesar de ser a pessoa menos indicada estrategicamente, foi a escolha perfeita para o momento, pois topou com o coração a busca que eu o propus e juntos demos início ao projeto. De início, fizemos uma série de apresentações em dupla em churrascarias vazias, ganhando pouco dinheiro e fazendo laboratório com novas canções e repertório de medalhões universais. De resultado, gravamos em minha casa, com minha filha mais velha ainda recém nascida, uma demo com 5 músicas, que na minha opinião, é o melhor e mais autêntico que o Falcatrua já gravou até hoje. Ali começamos a definir o conceito do trabalho. E é ainda esse conceito que me guia através dos anos.
A idéia inicial era distribuir essa Demo sem divulgar as pessoas, para que o trabalho se sobrepusesse aos indivíduos. Nascia ai o Pau de Arara espacial, a partir de uma conversa telefônica com a atriz Cynara Bruno. O Danilo foi então recrutado por ser um bom baixista e por estar à tôa e sem projetos. Já havia tocado comigo em um projeto fracassado chamado Impossíveis no meio dos anos 90. Entrou ressabiado em relação ao trabalho. Vestiu a camisa logo em seguida. Recrutamos então o baterista Luís que havia feito parte de uma banda importante da cidade e vinha tocando comigo e o Fonseca num projeto cover. Esse não ficou nem um show quando vislumbrou a realidade financeira do projeto. Danilo trouxe então o baterista Carioca, um moleque tocador de samba de quem nunca havíamos ouvido falar; que chegou sem instrumento, sem vontade e ainda hoje não entendemos porque topou.
Com essa formação fizemos uma série de shows instigantes apontando o rumo que ainda nos norteia, e lembro-me, que existia então uma força quase sobrenatural que guiava o trabalho e o tornava mais forte a cada casa noturna vazia, a cada barzinho de quinta categoria, a cada vaia pela estranheza a despretensão de nosso som. Houve ainda o festival que perdemos após temos feito o sem dúvida em nossos corações, o melhor dos shows da noite, mas vestidos de mendigos.
Instigar era um combustível, e pra isso não precisávamos filosofar, dar licões de moral, e nem tentar agradar; a trangressão era na alma, era sutil e as letras contavem histórias absurdas, normais, piegas, românticas e surreais sobre nossos próprios umbigos. Pela primeira vez na minha vida, senti que estava a caminho de fazer arte realmente. No significado mais simples da palavra. Havia uma entrega de alma a esse quesito. Um incidente pessoal acabou por afastar o Fonseca da equipe e como precisávamos tocar o bonde, partimos a procura de um novo front man. Meu primeiro pensamento recaiu sobre o Lazanha, um grande parceiro com várias afinidades, mas o Danilo sugeriu André Miglio, ex-vocalista da banda Tianastácia e atualmente componente do grupo circense Trampulim, o que eu e Carioca aceitamos de bate-pronto, visto a força incomum do cara no palco. Ele chegou num fim de tarde em meu apartamento no bairro Santo Ântonio com um bigode esquisito cantando muito alto a pérola Homem.Com. Não houve dúvidas, esse era o cara. A princípio, André entrou cheio de restrições pois já vinha desenvolvendo um trabalho de anos com o tal grupo circense.
Começa ai a epopéia do Falcatrua em busca de um conceito que já existia, mas que de repente, passou a não ser suficiente. A busca continuava, agora com novos elementos. Nos envolvemos em apresentações teatrais e circenses, fizemos projetos culturais, vestimos saias, cuecas e decoramos textos, cantamos sobre morte, vida e felicidade e nos enfronhamos na tal "música brazuca". Eram novos temperos somando-se a arte pop do falcatrua. O grupo começou a chamar a atenção em jornais, rádios e no meio, angariando fãs e inimigos.
A qualidade musical e técnica dos shows despencou absurdamente e de repente, isso não era o mais importante. Lembro-me como isso me chateou à época, e após dois anos fora de nossos trilhos, resolvemos abandonar o projeto circense "Álbum de Família" e recomeçar quase do zero, só que trazendo na bagagem a experiência sensacional do espetáculo, um disco-trilha confuso, pelo qual temos muito carinho.
O próximo ano trouxe a boa surpresa do Falcatrio, um projeto acústico aonde tentavamos resgatar o Falcatrua essencial com violão de 12 cordas, contrabaixo e vozes. Espetacular! Ali, pudemos nos conhecer melhor musicalmente e começar a desenvolver a volta do projeto original: O Pau de Arara Espacial. Após férias forçadas, o baterista carioca retorna à banda e damos início à temporada no Conservatório Bar, que resultaria no DVD.
Entra em campo então, o empresário Fred Lanna, que integrou a equipe como o quinto membro e assim Falcatrua começou a querer "virar gente". Agora tínhamos um estúdio, empresário, produtor, roadies, divulgador, agenda e parceiros de alta estirpe no meio musical. Gravamos o ainda confuso CD Pau de Arara Espacial de forma artesanal, mas alguma coisa daquela ingenuidade e despretensão do ano de 2000 havia se evaporado. Natural.
Agora tudo é mais simples, certo? Errado. A pressão aumentou a convivência com: a pretensão; a arrogância, a covardia, as conspirações, o dinheiro, ou a falta dele; e o discurso ficou desalinhado. Aí, ficou feio falar do próprio umbigo, das fraquezas, fazer músicas melodiosas, é obrigação ter "groove", ter "riff"; compor igual ao fulano, soar igual ao ciclano; refrão virou sinônimo de piegas, e principalmente uma ideia vazia do que é "ser falcatrua". Paramos de cantar nossas dúvidas e questionamentos e passamos a berrar nossas certezas e verdades absolutas.
Enquanto artista, me dou o direito à dúvida, à incoerência, à auto-crítica exarcebada, à busca pela excelência e ao erro e penso que em algum momento, perdemos o trilho ingênuo e espontâneo que nos levaria ao que mais anseio: falar diretamente ao nosso povo e compartilhar com ele as intempéries de nossas vidas em comum, sem precisar levantar bandeiras quixotescas e messiânicas e cair no clichê de tripudiar tudo e todos. Penso que falta a singeleza de contar histórias, dividir, emocionar e de forma sutil permanecer nos corações que nos estiverem disponíveis.
A aspereza do rock, a mpb-esquerdista, a insígnia do maldito e a patrulha ideológica nos afastam do é mais importante: fazer arte não usando de sua nobreza, mas sim da nobreza da alma humana, com excelência e generosidade. As portas estão se abrindo e o embate é inadiável.
Hoje, há milhões de teorias e conspirações sobre o que é o ser e o som "Falcatrua". Pessoalmente, discordo de todas.
Concluo repetindo que nos perdemos e deveríamos olhar pra trás e talvez perguntar ao único que, ingenuamente, talvez ainda deva saber: Gleisson Fonseca.
Hoje, há milhões de teorias e conspirações sobre o que é o ser e o som "Falcatrua". Pessoalmente, discordo de todas.
Concluo repetindo que nos perdemos e deveríamos olhar pra trás e talvez perguntar ao único que, ingenuamente, talvez ainda deva saber: Gleisson Fonseca.

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