Industrial José Costa
A pré-produção é um processo importantíssimo na formatação de um disco; é ali que testamos as várias possibilidades de uma música antes de decidir pela versão final. É tão trabalhoso quanto gravar o disco e demanda um bocado de paciência. É nessa hora que vemos o quão importante é nosso estúdio. Temos passado tardes e tardes no casarão da Industrial José Costa cozinhando os próximos passos do Falcatrua. O que me lembra que já a algum tempo, venho querendo falar um pouco sobre a casa.
Já na entrada, meu dodge dart desmontado já dá idéia do que encontrar pela frente. De contrução antiga, que penso remontar ao anos 40 ou algo do tipo, a casa já apresenta sinais de cansaço e ainda assim ostenta uma elegância que já não se vê nas construções de hoje. Dos seus três quartos grandes, quintal (grande o suficiente pra jogar falcatênis e futebol de parede), garagem-oficina, varanda, sala de visitas e copa; fizemos nosso estúdio Parafernália, nome mais que conveniente, visto a forma nem um pouco producente, em que os cômodos foram divididos. Dois de seus quartos viraram respectivamente Sala de gravação e técnica; o terceiro recebeu carinhosamente o nome de ´muquifodocari`, o que dispensa obviamente maiores explicações. Na sala de visitas e sua varanda elegante, é onde além de manter obras de arte de Arnaldo Baptista e memorabília do grupo; fazemos nossa reuniões numa mesa invisível. A energia dessa sala em específico é clara e sentida por todos os visitantes; é ali aonde tomamos nossa decisões, discutimos a relação e comemoramos cada passo. A copa acabou se transformando em depósito de equipamento, aonde a geladeira do Gim (irmão do André) e nosso velho e temperamental microondas dividem espaço com cases de instrumentos e amplificadores. A fama do nosso banheiro nos precede, já que virou a capa do nosso DVD; e é no quintal de muro grafitado desenhos de carvão do Carioca no chão que o André puxa as sessões de tai-chi nos fins de tarde. Mas é a grama em frente a varanda frontal que é o xodó do Falcatrua. É nela que passamos bom tempo de nosso expediente pensando e fazendo turnos regando e acompanhando sêo Antônio dando um trato.
É lá nessa casa branca que o turbilhão de informações que somos se catalisa. Por incrível que pareça, os vizinhos não nos escutam com nossos instrumentos, não reclamam; e a relação segue pacífica na Industrial José Costa, uma rua antiga, discreta, tradicional e cheia de segredos. É assim que deve ser. Algumas coisas devem ser ditas, outras não.

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