domingo, maio 20, 2007

Industrial José Costa

Mal terminamos de lançar o Pau de Arara Espacial, já começamos a pré-produzir o próximo trabalho. Como ainda não conseguimos chegar ao resultado sonoro desejado, continuamos pesquisando. Temos agora, 10 novas músicas.
A pré-produção é um processo importantíssimo na formatação de um disco; é ali que testamos as várias possibilidades de uma música antes de decidir pela versão final. É tão trabalhoso quanto gravar o disco e demanda um bocado de paciência. É nessa hora que vemos o quão importante é nosso estúdio. Temos passado tardes e tardes no casarão da Industrial José Costa cozinhando os próximos passos do Falcatrua. O que me lembra que já a algum tempo, venho querendo falar um pouco sobre a casa.
Entre os canteiros da av Silva Lobo e a movimentação cinzenta da Barão Homem de Melo, esconde-se sorrateira, a Industrial José Costa, uma ruela esquecida pelos ônibus e de clima surpreendentemente interiorano. Como já não se usa mais, os vizinhos se conhecem pelo nome e se cumprimentam diariamente. Tem o Chico que lava os carros e guarda a rua como um leão, a dona Lucy que mora em frente com a filha e o marido um pouco surdo; o Gustavo que mora na casa acima e é piloto de provas de arrancada e vive com a mulher e a filhinha recém nascida; e na casa abaixo, o Roberto, nosso senhorio. No quarteirão abaixo, Eduardo e Ricardo, os irmãos carpinteiros (eles ainda existem sim!) que já nos prestaram tantos serviços mantêm seu galpão logo ao lado do casarão da família materna da nossa queridíssima Luiza, filha do Cari. No meio das tardes de semana, pão francês e roscas são vendidos de porta em porta de bicicleta; lá pelas 3:30 da tarde, é batata ouvir a buzininha "a-fu-na-famm". Em meio a esse clima bucólico, situa-se a casa branca com muro "chapiscado" aonde se lê já bem apagado "Jardim de Infância" (que fizemos questão de manter).
Já na entrada, meu dodge dart desmontado já dá idéia do que encontrar pela frente. De contrução antiga, que penso remontar ao anos 40 ou algo do tipo, a casa já apresenta sinais de cansaço e ainda assim ostenta uma elegância que já não se vê nas construções de hoje. Dos seus três quartos grandes, quintal (grande o suficiente pra jogar falcatênis e futebol de parede), garagem-oficina, varanda, sala de visitas e copa; fizemos nosso estúdio Parafernália, nome mais que conveniente, visto a forma nem um pouco producente, em que os cômodos foram divididos. Dois de seus quartos viraram respectivamente Sala de gravação e técnica; o terceiro recebeu carinhosamente o nome de ´muquifodocari`, o que dispensa obviamente maiores explicações. Na sala de visitas e sua varanda elegante, é onde além de manter obras de arte de Arnaldo Baptista e memorabília do grupo; fazemos nossa reuniões numa mesa invisível. A energia dessa sala em específico é clara e sentida por todos os visitantes; é ali aonde tomamos nossa decisões, discutimos a relação e comemoramos cada passo. A copa acabou se transformando em depósito de equipamento, aonde a geladeira do Gim (irmão do André) e nosso velho e temperamental microondas dividem espaço com cases de instrumentos e amplificadores. A fama do nosso banheiro nos precede, já que virou a capa do nosso DVD; e é no quintal de muro grafitado desenhos de carvão do Carioca no chão que o André puxa as sessões de tai-chi nos fins de tarde. Mas é a grama em frente a varanda frontal que é o xodó do Falcatrua. É nela que passamos bom tempo de nosso expediente pensando e fazendo turnos regando e acompanhando sêo Antônio dando um trato.
É lá nessa casa branca que o turbilhão de informações que somos se catalisa. Por incrível que pareça, os vizinhos não nos escutam com nossos instrumentos, não reclamam; e a relação segue pacífica na Industrial José Costa, uma rua antiga, discreta, tradicional e cheia de segredos. É assim que deve ser. Algumas coisas devem ser ditas, outras não.

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